quinta-feira, 9 de setembro de 2010

EU E MANUEL

Eu e Manuel

Conheci Manuel há alguns anos, logo que ele comprou sua pequena casa no subúrbio. Vim morar com ele e nossa afinidade e companheirismo foram imediatos. Não que combinássemos em tudo, pelo contrário, em algumas coisas simplesmente éramos o oposto: ele adorava sua pequena piscina de plástico o que eu particularmente achava ridícula. E quando ele resolvia ligar seu rádio no volume máximo com aquelas músicas regionais, nossa senhora, meus ouvidos doíam...Mas fora isso bem que éramos felizes...Ele era um bom cozinheiro, comidas simples mas meu paladar não era mesmo dos mais requintados. Fazia um cozido de carnes dos deuses..E o que me lembro com mais saudades era de nossas tardes fazendo esporte. Sempre desconfiei que ele era um jogador de beisebol frustrado pois do que ele mais gostava era arremessar bolas e mais bolas fazendo aquelas poses típicas e sempre narrando as jogadas..Hehe eu na verdade não entendia nada do que ele falava e de suas pontuações malucas mas colaborava buscando as bolas e as vezes tendo de as encontrar no meio dos matagais...Nunca me arrisquei a jogá-las nem conseguiria mesmo..Deixava essa doideira para ele..Ou então de quando ele resolvia desligar aquele maldito rádio barulhento e ficávamos sentados na varanda apenas ouvindo o silêncio...Apesar do seu jeito rude no fundo Manuel era bem carinhoso...Sentia seu sentimento por mim apesar de ele nunca ter sido muito explícito a respeito mas o que um bom cafuné não faz não é mesmo? Eu acreditava no “Felizes para Sempre” até que Manuel começou a mudar de comportamento: já não cozinhava mais apenas abria sacos de comidas prontas (muito ruins diga-se de passagem) e colocava dentro do forno. As panelas não saíam mais do armário e eu percebia que nem ele mesmo tinha mais apetite. Andava do quarto para a sala e me parecia sempre cansado. Nem mesmo seu rádio ele ligava mais. Por mais que eu tentasse animá-lo era tudo em vão. Jogar nosso “beisebol maluco” então nem pensar. Sentado na varanda nem sei quem mais cochilava se eu ou ele. Então um dia um carro branco veio buscar meu Manuel. Bem que tentei ir junto rodeei de todos os jeitos aqueles homens enormes, mostrei meu interesse em não me separar do meu companheiro será que eles não percebiam que sem ele minha vida não teria sentido? “Negativo” foi a resposta “você não pode ir junto”.

Bem hoje estou aqui, na varanda, no mesmo lugar de sempre ouvindo o silêncio...o que me salva é o vizinho que vem todo dia me trazer comida..é dura a vida de um cão.!

Texto de MARIA CRISTINA DE LIMA MARTINEZ..

CELESTE MARIA

CELESTE MARIA

Celeste Maria nasceu sob berço esplêndido. Seu pai um renomado homem da sociedade vinha de uma família tradicional daquela grande cidade e naquele início de 1900 os negócios fervilhavam tornando suas viagens cada vez mais constantes. Sua mãe uma doce francesa havia estudado no clássico Colégie D´as Arts de France e passava boa parte do tempo pintando belíssimos quadros. Celeste Maria cresceu naquela enorme mansão (quando criança tudo é bem mais enorme mesmo) com muito espaço e verde dos quintais e jardins. Nunca em momento algum precisou sair alem dos portões...não tinha a menor idéia do que havia alem deles e tão pouco se importava com isso. Tinha uma adorável babá que lhe fazia companhia o tempo todo por onde levantasse os olhos lá estava ela sempre a cuidar para que não caísse ou arranhasse os joelhos ou sei lá mais o que...mas Celeste Maria era uma criança muito calma apesar de ter sempre os pensamentos a fervilhar..adorava o cheiro dos cravos do seu pequeno jardim achava-os mais bonitos que o imenso tapetes de camélias do laguinho central na entrada da casa...Era ali o seu lugar preferido...era ali que costumava pintar seus pequenos quadros herança genética de sua mãe..Ou apenas ficar deitada na grama vendo desenhos de nuvens no céu..ou quando lhe permitiam sentir a deliciosa chuva no verão que por vezes caía...A natureza era sua melhor amiga havia sempre coisas a explorar coisas que nem sempre os adultos percebiam...o caminho secreto das formigas sempre ligeiras..as pequenas rãs que se escondias nas pedras úmidas dos canteiros..os pequenos pássaros espertos a comer as frutas dos altos das árvores.. E assim entre um Natal e outro (o Natal era uma festa linda adorava a casa enfeitada de muitas velas e flores) ela era feliz. Se precisasse de médico sua mãe mandava chamar o sempre solícito dr Moralles velho amigo da família ele e seus xaropes amargos e gotas e comprimidos para baixar a febre. Mas de um modo geral criada naquela redoma de cuidados Celeste Maria raramente ficava doente. Fora o dr Moralles ,poucas pessoas visitavam a mansão. E para ela isso pouco importava já que mesmo quando tinham visitas ela nunca permanecia nos salões mesmo...Tinha sempre que se recolher cedo e nas noites quentes a criada deixava a pequena janela lateral de seu quarto aberta onde uma minúscula varanda era o seu local dos sonhos..quando não tinha sono ficava ali a observar o espetáculo das estrelas e a lua ah a lua era o seu maior encanto aquela bela bola redonda cor de prata no céu....

Mas, e toda história que se preze tem um mas, um dia seu pai chegou de mais uma de suas longas viagens acompanhado de um jovem rapaz afilhado seu que embarcaria dentro de um mês para Londres para casar-se com uma jovem inglesa e precisava de um tempo para organizar seus documentos de embarque. Celeste Maria então já não era mais uma simples criança apesar de seus parcos 12 anos. Havia percebido que algumas coisas estavam mudando dentro de seu peito..as vezes surpreendia-se com um calor pelo corpo e chorava sem motivo algum em algumas noites antes de dormir e claro sem nunca deixar que ninguém percebesse suas mudanças de comportamento..era melhor continuar a ser sempre a mesma Celeste Maria senão poderiam chamar o dr Moralles e seus remédios..não sabia como sabia mas sentia que seu problema não era curável com remédios...Seu corpo andava esquisito seus peitos doíam e havia sangrado durante o banho..mas conseguiu disfarçar tudo muito bem e nem a velha babá desconfiou de nada. E eram apenas alguns pingos de sangue talvez tivesse se machucado naquela hora em que tentou alcançar uma pêra apetitosa num galho mais alto..Enfim não queria mais pensar nisso havia colocado uma pequena fronha dentro de sua roupa íntima e pronto depois daria um jeito de enterra-la sem que ninguém visse. Aproveitaria os momentos em que Albertina cochilava (esse era o nome de sua babá) e ela cochilava com mais freqüência a cada ano e se livraria do pano.

E então seu pai havia chegado com novidades, hospedariam o tal jovem por um mês e a rotina da mansão mudou para a correria de arrumar o quarto de hóspedes “Querido precisamos de uma lista do que o jovem Rui gosta de comer” disse a mulher para o marido e essas coisas enfim que acontecem quando recebemos alguém em nossa casa. Mas o que mais mudou e ninguém conseguiu perceber foram os pequenos olhos escuros de Celeste Maria..quando ela fitou o jovem rapaz sua boca secou suas pernas tremeram e sua cabeça bem sua cabeça começou a ferver num misto de dor e tontura que ela mal conseguia disfarçar. Ou melhor, disfarçava muito bem pois por fora sua serenidade era a mesma. Mas a partir daquele momento suas noites não eram mais de pequenas insônias mas sim de total insônia..Se dormia sonhava com aquele jovem rapaz lindo tão lindo como uma das pinturas de sua mãe. Se acordava continuava a sonhar com ele que claro jamais a notou era uma pequena menina. Os dia passaram a ter um outro significado e quando ele saía ficava a fitar insistentemente o grande portão para que logo ele retornasse. Aquele mês passou diabolicamente rápido demais e enfim chegou o dia da partida. Celeste Maria viu as malas no hall e as empregadas desfazendo o quarto onde o jovem se hospedara. Sua mãe havia mandado preparar um belo almoço percebera isso porque a mesa fora montada no jardim principal e taças e copos finos colocados sobre a mais linda das toalhas de mesa. Mas Celeste Maria pouco comeu. Sem que ninguém percebesse (como sempre) passou todo o almoço a fitar aquele que fazia seu pequeno coração disparar. E então as despedidas e promessas do tipo “sim vou escrever sempre que puder minha senhora sua mansão é linda” etc etc.. E o jovem saiu pelo portão.

O que ninguém percebeu naquele dia (como sempre) é que outra pessoa também saiu por aquele portão ,uma pessoinha hipnotizada por sentimentos inexplicáveis e por uma louca tontura pelo corpo tal qual fizeram os ratos quando saíram pelas ruas seguindo a flauta em Hamellin naquele antigo conto.

Horas depois quando o chefe da guarda chegou a mansão encontrou uma família sob o signo do caos..”Como assim sua filha nunca saiu da casa..procuraram no pomar? Há sótão ou porão que ela pudesse se esconder? Alguem brigou com ela? Não notaram nada nos últimos dias?” Enfim para todas as questões a mesma resposta “ Não”.

Celeste Maria nunca mais foi encontrada...

Tres semanas depois a polícia retorna a casa para dar o caso por encerrado..Em meio a calmantes e consolos a mãe da menina os recebe no quarto de Celeste Maria de onde já quase não sai mais. O jovem policial tenta explicar que já não há mais por onde procurar foram em todos os cantos da cidade perguntaram a todos pela rua mas tudo fora em vão. Nem sinal de sua filha.!

“Passamos os últimos dias com toda a nossa guarnição em alerta nessa operação e gritamos e chamamos por sua filha até que nossos homens perdessem a voz..”

E então numa gargalhada patética e demente a mãe disse: “Ela jamais ouviria: Celeste Maria era surda muda....”

FIM

TEXTO DE MARIA CRIS DE LIMA MARTINEZ 2010