Eu e Manuel
Conheci Manuel há alguns anos, logo que ele comprou sua pequena casa no subúrbio. Vim morar com ele e nossa afinidade e companheirismo foram imediatos. Não que combinássemos em tudo, pelo contrário, em algumas coisas simplesmente éramos o oposto: ele adorava sua pequena piscina de plástico o que eu particularmente achava ridícula. E quando ele resolvia ligar seu rádio no volume máximo com aquelas músicas regionais, nossa senhora, meus ouvidos doíam...Mas fora isso bem que éramos felizes...Ele era um bom cozinheiro, comidas simples mas meu paladar não era mesmo dos mais requintados. Fazia um cozido de carnes dos deuses..E o que me lembro com mais saudades era de nossas tardes fazendo esporte. Sempre desconfiei que ele era um jogador de beisebol frustrado pois do que ele mais gostava era arremessar bolas e mais bolas fazendo aquelas poses típicas e sempre narrando as jogadas..Hehe eu na verdade não entendia nada do que ele falava e de suas pontuações malucas mas colaborava buscando as bolas e as vezes tendo de as encontrar no meio dos matagais...Nunca me arrisquei a jogá-las nem conseguiria mesmo..Deixava essa doideira para ele..Ou então de quando ele resolvia desligar aquele maldito rádio barulhento e ficávamos sentados na varanda apenas ouvindo o silêncio...Apesar do seu jeito rude no fundo Manuel era bem carinhoso...Sentia seu sentimento por mim apesar de ele nunca ter sido muito explícito a respeito mas o que um bom cafuné não faz não é mesmo? Eu acreditava no “Felizes para Sempre” até que Manuel começou a mudar de comportamento: já não cozinhava mais apenas abria sacos de comidas prontas (muito ruins diga-se de passagem) e colocava dentro do forno. As panelas não saíam mais do armário e eu percebia que nem ele mesmo tinha mais apetite. Andava do quarto para a sala e me parecia sempre cansado. Nem mesmo seu rádio ele ligava mais. Por mais que eu tentasse animá-lo era tudo em vão. Jogar nosso “beisebol maluco” então nem pensar. Sentado na varanda nem sei quem mais cochilava se eu ou ele. Então um dia um carro branco veio buscar meu Manuel. Bem que tentei ir junto rodeei de todos os jeitos aqueles homens enormes, mostrei meu interesse em não me separar do meu companheiro será que eles não percebiam que sem ele minha vida não teria sentido? “Negativo” foi a resposta “você não pode ir junto”.
Bem hoje estou aqui, na varanda, no mesmo lugar de sempre ouvindo o silêncio...o que me salva é o vizinho que vem todo dia me trazer comida..é dura a vida de um cão.!
Texto de MARIA CRISTINA DE LIMA MARTINEZ..
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