quarta-feira, 17 de novembro de 2010

SOM NA VITROLA

Procurou nas velhas prateleiras empoeiradas por algum disco que conhecesse. Mas nada lhe parecia familiar. Onde foram parar suas coleções favoritas? Lembrava com certeza que colocava tudo em ordem alfabética motivo até mesmo de chacota entre os amigos. Diziam-lhe que só ele mesmo fazia aquilo. Mas não encontrava e isso já o estava deixando nervoso. Sabia que não havia se desfeito de nada, sim sim havia dado alguns livros e aquela coleção de charutos afinal havia parado de fumar há muito tempo. Mas os discos e as fotos tinha certeza que havia guardado. Ah sim e as garrafas de licor tão caras na época mas vazias não valiam mais nada. E tambem desde que o médico havia lhe proibido de beber para que serviriam? Nunca mais dona Eleonora faria licores. Ou se fizesse não lhe daria. Encontrou uma pequena caixa, graças a Deus suas agulhas da vitrola estavam bem guardadas. Sempre tinha duas de reservas. E o que era aquele vidro escuro no fundo? Tinta para sua caneta. Chacoalhou o vidro apesar de escuro parecia vazio. Será que a tinta tinha evaporado? Pô e o rapaz que lhe atendeu na Sulina havia garantido que era de boa qualidade. Sabia que não deveria ter confiado naquele guri mascando chicletes atrás do balcão. Agora deram pra isso. Mascam esse troço e não engolem..Aliás já não tinha gostado muito do estabeleciemnto lembrava agora que havia procurado um lugar na entrada para deixar seu chapéu e não havia encontrado. Pouca vergonha os homens não estavam mais usando chapéus. Mas tinha certeza que isso não iria durar muito. Logo logo o bom senso voltaria a moda. Ora andar sem chapéu e uma bela bengala que falta de elegância.
Olhou para cima e deu de cara com um embrulho. O que era mesmo aquilo? Ah sim um par de luvas pretas. Iria mandar a empregada limpá-las com certeza sua filha iria querer usá-las mais tarde no seu primeiro baile. Pensando bem talvez sua neta tambem quisesse usa-las. Não importa eram de pelica duraria muitas gerações e óbvio que as mulheres nunca deixariam de usar luvas. Mas onde estavam seus discos do Ivon Curi. Bom esse guri, canta direitinho. Claro não é nenhum Chico Alves mas canta bem. Ou será que hoje estava mais disposto a ouvir um bom tango? "UNO" seu preferido. Esse ano ainda iria a Buenos Aires, ah as grandes noites em Buenos Aires. Lembrava que seu amigo o Wenceslau estava de viagem marcada para Montevidéu..iria casar lá com dona Jurema. Cá pra nós poucos sabiam que ele era desquitado. Desquitou-se dias desses. Mas esses assuntos nem é bom a gente comentar.
Percebeu uma gaveta. Estranho não lembrava desse armário ter gavetas. Com um pouco de jeito abriu e sim ali estavam seus discos. Mas quem havia colocado eles assim um em cima do outro não sabem que estragam? A criadagem. Só podia ser. Não se pode dar moleza e eles tomam conta de tudo. Sentou-se na velha poltrona com uma colcha por cima deviam mandar colocar uma napa que gente que não recupera os móveis. Pegou sua preciosa coleção. Qual iria ouvir? Teria muito tempo para escolher. E ali ficou a olhar com saudades cada capa e a cada uma delas as histórias e as recordações a lhe alimentar alma...


EMPREGADA: Dona Lia seu avô se trancou lá no sótão de novo. Tiro ele de lá?
Dona Lia: Não...deixa ele viver mais um pouco...

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